Tal simetria que é pedaço teu
nesta porção é inexata e desigual
como a argila que pisas
Tu que sempre fostes medíocre
levada a cabresto pelo dolo alheio
como a mula que montas
Fina melancolia que é irmã tua
entardece, escurece, amanhece
como o vinho do tonel
e a vida emudece na fazenda
Pena não te ver dali
a cortina encobre tua história
como a concha do mar
Se a luz se acende: exaltação
ouço os movimentos e espero
como o garoto e a viagem
Agora te avisto nitidamente: outros ares
a trilha viva toca ao fundo
como o preceder do horror
e a vida é um lindo paradoxo
Do palco não podes me ver
a multidão calada abafa o meu gritar
como sempre foi
Antes do eco, o fim do espetáculo
a cortina se fecha, a multidão sai
como a paixão dos homens
Seu corpo caído e imóvel
a fumaça que ainda sai do cano
como um suave incenso
e a vida se finda no teatro da cidade
A fumaça que não purifica o psicopata
o sangue que lava o piso dos bons
como o último capítulo
Melhor ouvir os brados alheios!
Berram menos que o sussurrar interior
(Daniel G. Costa)