sexta-feira, 26 de outubro de 2007

POR UM FIO


Alguém pensava em faíscas
no furor do pavio social.
Tudo explodirá hoje,
talvez amanhã.
Já explodiu.
Não viu?
.
(Daniel G. Costa)

sábado, 22 de setembro de 2007

BALLET DE MAIO

Tal simetria que é pedaço teu
nesta porção é inexata e desigual
como a argila que pisas

Tu que sempre fostes medíocre
levada a cabresto pelo dolo alheio
como a mula que montas

Fina melancolia que é irmã tua
entardece, escurece, amanhece
como o vinho do tonel

e a vida emudece na fazenda

Pena não te ver dali
a cortina encobre tua história
como a concha do mar

Se a luz se acende: exaltação
ouço os movimentos e espero
como o garoto e a viagem

Agora te avisto nitidamente: outros ares
a trilha viva toca ao fundo
como o preceder do horror

e a vida é um lindo paradoxo

Do palco não podes me ver
a multidão calada abafa o meu gritar
como sempre foi

Antes do eco, o fim do espetáculo
a cortina se fecha, a multidão sai
como a paixão dos homens

Seu corpo caído e imóvel
a fumaça que ainda sai do cano
como um suave incenso

e a vida se finda no teatro da cidade

A fumaça que não purifica o psicopata
o sangue que lava o piso dos bons
como o último capítulo

Melhor ouvir os brados alheios!
Berram menos que o sussurrar interior


(Daniel G. Costa)

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

O GATO

Entre pernas, ramos, árvores
cadeiras, café, cantina, mesa...
Um corpo negro, dois olhos acesos: Gato

Entre olhares, pegadas, amores
alguém ali se sente como a disforme fera...
Um pensamento latente, duas tragetórias: Humano

(Cleibson Freitas, Daniel G. Costa / Ufes - 31/08/2007)

BANQUINHO

A noite cinza e fria
no lugar que nós sabemos
você longe, impossível, impalpável

Em meio à turvação
a imagem que eu previa
da lembrança

O que Drummond não expressou
nós sempre sentimos
Ao poeta, a função
aos amantes, o dom

E se o sabor da fantasia nos motiva
o sonho não desloca totalmente do momento

Felizes seremos se sempre acreditarmos
no sublime afeto,utópico que seja
e na pureza do tom que o papel deseja

Que fique aos incrédulos
a indiferença pós-moderna
a desesperança desesperada
o desamor desanimado
Nenhum deles contemplou o teu sorriso

A nós que amamos
permaneça a imagem do velho banquinho de praça
que o progresso apagará como rói a traça
e o porvir verá o casal de velhinhos
sentado em algum lugar
em amores juvenis a recordar
um tempo em que hostilizavam
menos por sentimento que por banalidade
e aqueles

tinham tempo para amar.




(Daniel G. Costa)